
Estas são as duas perguntas insistentes na canção ‘Comida’, dos Titãs, de 1987. E a mesma letra ainda fala ‘a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte’.
A música tem 31 anos, mas o tema não poderia ser mais atual, já que, cada vez mais, a comida faz parte de um contexto que vai além da alimentação. Sair para comer é uma experiência multissensorial com um forte apelo estético. Se antes, famílias e grupos de amigos saíam para comer em busca de confraternizar, hoje essa vivência é muito mais ampla e complexa.
Na era dos reality shows gastronômicos e do Instagram, a comida ganhou dimensões que vão além do sabor. Muitos chefs apostam na culinária de resgate, que trabalha nossas memórias e nos levam de volta à infância, ao conforto do lar, à comida da vó; é o que chamam de comfort food. É uma experiência que vai além da comida em si, embora, neste caso, o visual tenha pouca importância – aqui vale a sensação que o alimento provoca, os sentimentos que ele desperta.
No entanto, mesmo a comida simples, nos dias de hoje, ganha um cenário que valoriza a experiência como um todo. Tem arte, tem diversão, tem política e tem status em nossos pratos e isso torna o ritual muito mais rico, beirando ao exibicionismo, em muitos casos. Mas, que mal há nisso?
Uma louça produzida artesanalmente por uma ceramista local; um coquetel servido sobre uma boia em formato de sereia; paredes criadas para comporem cenários para o Instagram; cozinhas-show, que permitem que os clientes assistam ao preparo dos pratos e ambientes tematizados para um simples – mas de primeiríssima qualidade – café após o almoço. Tudo isso traz à comida um caráter que vai além da nutrição, que ajuda a alimentar não só o corpo, mas a alma, o ego, as relações sociais e as mídias sociais, claro.