Itamirim

Fotos: Odjair Baena

"Eu sou a pedra pequena e este nome me fortalece"

Seu nome, Itamirim, ‘pedra pequena’ em tupi-guarani, não traduz a força de sua atuação junto às aldeias indigenas do litoral sul. Ela é uma espécie de porta-voz da aldeia Tabaçu Reko Ypy, na terra indígena Piaçaguera, na divisa entre Itanhaém e Peruíbe.

Seu discurso, firme e convicto, é de quem luta pelos direitos do índio continuar sendo índio, mas também de quem sabe que não dá para viver totalmente à parte do mundo ‘lá fora’.

Professora, ela é formada pela USP, tem 37 anos e dissemina a cultura indígena na região falando e cantando sobre a importância de os povos indígenas poderem continuar vivendo como tal. ‘Sem os indíos, não vejo como conseguiremos preservar a natureza e manter o equilíbrio com o meio ambiente’, afirma.

Além das disciplinas como matemática, ciência e português, Itamirim usa o ambiente natural para ensinar as crianças indígenas a serem índios. ‘Eu ensino a fazer fogo sem isqueiro, beber água sem copo, preparar um abrigo em caso de chuva, colher os frutos e saber quais podem ser comidos. Vivência pura’. A ideia é que as crianças cresçam sabendo se virar no ambiente deles.

Itamirim e todos os outros 25 índios das sete famílias que moram na aldeia mantêm, dentro de sua terra, as tradições e o modo de vida do seu povo. Conversam em tupi-guarani entre eles, vestem-se apenas com sungas, andam pintados e chamam-se pelo nome em tupi-guarani, apesar de todos terem o seu nome civil, como são conhecidos pela sociedade. ‘O nosso nome verdadeiro é muito importante, pois é sonhado antes de a criança nascer pelo mais velho da tribo ou pela avó da criança. Tem um significado forte para cada um de nós, por isso só usamos o nome civil fora da aldeia’.

‘Pedra pequena’ já viveu em cinco das outras aldeias da região e decidiu, junto da mãe e do marido, o cacique da tribo Verá (Relâmpago) criar a própria aldeia para fazer um trabalho de fortalecimento da raíz indígena tradicional. ‘Muitos líderes querem trazer a cidade para dentro da aldeia, mas nossas raízes indígenas ainda são muito fortes dentro de nós, por isso o nome Tabaçu Reko Ypy, ‘o renascer da grande aldeia’. Não falo da aldeia física, mas da aldeia que habita em nós, nossos costumes, nosso jeito de viver em harmonia com a natureza, de criar as crianças, de compartilhar tudo’.

Para Itamirim o modo de vida do homem branco é muito sedutor e isso faz com que muitos líderes indígenas sejam influenciados e esqueçam suas raízes. ‘Mas aqui nós definimos que viveremos com 50% da nossa cultura e 50% da cultura de fora, para que não percamos nossa essência e também não fiquemos perdidos diante do mundo. Infelizmente dependemos da tecnologia e de outras coisas do homem branco pois a nossa mata não oferece mais tudo o que precisamos’, lamenta.

Ela acredita que quando um líder indígena permite que a cultura do homem branco invada a sua tribo, ele está ajudando a matar a cultura do índio. ‘Não adianta as aldeias se prepararem para receber turistas, encenando um modo de vida indígena e no dia-a-dia não vivenciarem isso de verdade. Aqui nós somos o que somos todos os dias, o que eu propago é o que eu vivo e o que minha gente vive’.

Itamirim lamenta que muitas pessoas questionam ‘por que o índio quer tanta terra se ele não faz nada?’ E rebate: ‘nós fazemos o mais importante, que é preservar essas terras para vocês, homens brancos’. ‘Se notamos algum desmatamento, acionamos a Funai, se percebemos queimadas, também denunciamos. E neste sentido, temos apoio dos órgãos responsáveis’.

Por meio da música, ela leva sua cultura à cidade e tenta atrair as crianças indígenas para as suas raízes. ‘Eu faço música que conta a nossa história em ritmos populares para que nossos pequenos não se sintam tão deslocados e não achem chato ser índio’.

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Diego Brígido

Editor da Revista Nove