Cenário Cultural

Fotos: Christian Jauch

A arte nossa de cada dia

Quando surgiu a ideia desta pauta – e é claro que ela surgiria logo nas primeiras edições da revista – veio junto a preocupação de sair do lugar comum. Particularmente no último mês, a Cultura no Brasil foi discutida, debatida, defendida, bradada e incitou manifestações diversas. Mas a pauta já estava definida antes do pingue-pongue de decisões do Governo – se sai Ministério ou se fica Ministério –, pois é senso comum que Cultura independe de posição política. A Cultura é e o Governo está. E já que a ideia era sair do lugar comum, reunimos ícones das artes na região dentro de um espaço nada comum – o Café Teatro Rolidei – e deixamos que eles falassem sobre o Cenário Cultural da Baixada Santista. E o delicioso resultado você acompanha nas próximas páginas.

Antes de mais nada, é importante apresentarmos nossas personagens, embora todas elas dispensem apresentações.

Cláudia Alonso é psicóloga, atriz, educadora de dança e coordenadora das atividades do projeto TAM TAM e do Orgone Grupo de Arte.  

Amauri Alves é ator, encenador, produtor cultural e professor de artes. Atualmente também é Secretário de Cultura de São Vicente.

Toninho Campos é empresário, diretor do Cine Roxy, com quatro unidades na região: duas em Santos, uma em São Vicente e uma em Cubatão.

Nossa conversa

Todos a postos, começamos o nosso bate-papo com uma provocação, fomentada pelo calor das discussões daquele momento: Pessoal, é possível fazer Cultura sem o apoio do poder público?

A primeira a se manifestar foi Cláudia Alonso, que acredita que a partir do momento em que entendemos a Cultura como base fundamental na pirâmide social para garantir a cidadania plena, somos fazedores culturais. E isso, segundo ela, independe de ajuda do Governo e até mesmo de dinheiro. ‘Aliás, a essência, o verdadeiro papel da Cultura na sociedade se perde quando ela vira apenas um negócio’. Ela lembra que o Projeto TAM TAM, que promove a inclusão por meio da arte, é mantido sem a ajuda do poder público, sem dinheiro.

Para Toninho Campos é um grande erro contar com políticas públicas para se fazer Cultura, já que poucos são os beneficiados dos programas do Governo. Amauri Alves afirma que é possível fazer Cultura sem recursos, mas admite que a figura do poder público é, sim, importante, como fomentador e financiador de programas. ‘O brasileiro é um produtor cultural nato, a toda hora nós produzimos Cultura. Mesmo na crise, tem muita gente produzindo’. Para ele o grande questionamento é outro ‘é possível sobreviver de Cultura’?

Amauri ainda afirma que é natural que, na crise, as pessoas cortem aquilo que não é essencial e a Cultura acaba sendo sacrificada. ‘Se a pessoa tem que optar por pagar a conta de luz ou pagar o teatro, é óbvio que ela vai pagar a luz’, conclui.

Todos concordam, no entanto, que essa dificuldade não é de agora, não tem relação com a crise e também não é exclusiva do Brasil. Amauri lembra que mesmo na Europa levar público ao teatro não é fácil, a menos que seja um festival ou uma peça com atores renomados. ‘O espetáculo que está fazendo carreira sofre. As pessoas normalmente vão para ver as celebridades e não o espetáculo’. Toninho acrescenta que os norte-americanos, por exemplo, frequentam menos o teatro do que os brasileiros.

Também para os três, infelizmente, as pessoas não valorizam a arte da sua região e só frequentam manifestações culturais quando é de graça. ‘Há uma [cultura] de que estão fazendo um favor indo prestigiar um espetáculo, lamenta Claudia Alonso. Toninho complementa dizendo ‘mal sabem que uma peça de teatro ou um filme pode mudar a vida de uma pessoa’.

‘Cultura é hábito’, concluem todos. O teatro e o cinema, segundo nossos convidados, concorrem com o jogo de futebol, o final da novela e a chuva. É uma pena!

E o público que consome arte na região é o mesmo para todas as expressões culturais? Ou seja, quem vai ao cinema também vai ao teatro ou a uma exposição?

Amauri acha que não. Ele diz e os demais concordam que o cinema é mais democrático e que agrada a públicos mais distintos. ‘É muito difícil você convencer alguém a ir ao teatro’, lamenta Amauri. ‘Eu não gosto de teatro, tem que pensar muito’ é o que a Cláudia afirma ouvir das pessoas.

Mas Toninho Campos faz uma constatação interessante: ‘Mesmo o cinema tem vários públicos. O perfil de quem vai ao Roxy de Santos é completamente diferente daquele que frequenta São Vicente e Cubatão’. Outra constatação é que a maioria ainda vai ao cinema para assistir os blockbusters e poucos são os que se dedicam a filmes mais artísticos. ‘Já aconteceu muitas vezes de nós projetarmos filmes mais alternativos com as salas vazias’. Segundo o empresário Santos, principalmente, já teve um público muito melhor para filmes que não são megaproduções.

Cláudia, o projeto TAM TAM promove a inclusão social por meio da arte ou é redundância falar em ‘inclusão social por meio da arte’ uma vez que devemos entender que a arte não deve ser exclusiva?

‘É redundância tudo. A palavra inclusão já subentende que é social. Inclusão é um pressuposto básico de sociedade para todos. Nós somos militantes da não-exclusão, a nossa principal ferramenta é o encontro, pois as pessoas perderam o costume de compartilhar momentos, olhar nos olhos, tocarem-se. Não há teatro ou arte inclusiva; a Cultura já é para todos’.

Toninho, o que mudou desde 1934, quando o Cine Roxy foi inaugurado, no perfil do público que vai ao cinema?   

‘Naquela época ir ao cinema era um grande evento, as pessoas se produziam. Alguns anos depois, o Gonzaga passou a ser conhecido como Cinelândia, pois haviam vários cinemas, e todos os filmes começavam na mesma hora. Então, as pessoas escolhiam o filme e o cinema na hora. O Roxy começou com 1400 lugares, mas com o tempo a televisão começou a tirar o público do cinema e aqueles quatro ou cinco filmes que mantinham os cinemas o ano todo, não eram mais suficientes. Então, na década de 1990, começam a surgir os multiplex – cinemas com várias salas – e as pessoas voltam a escolher os filmes na hora, mas dentro do mesmo cinema. Outra diferença é que agora as pessoas vão ao cinema para encontrar aqueles da mesma ‘tribo’, que se aproximam pelo gosto’.

Amauri, a Encenação, em São Vicente, é mais que o maior espetáculo de areia do mundo, é um momento importante para os vicentinos, que saem do anonimato para atuar e se sentem pertencente à história da cidade. A descontinuidade do espetáculo em 2016 fere ainda mais a autoestima da população?

‘Eu tenho experiência com teatro comunitário em vários lugares, inclusive fora do país, e o que eu percebo é que as pessoas se apropriam daquele momento. É quando elas se sentem fazendo parte de algo. E esta conexão entre pessoas tão diferentes é o motivo da existência de projetos como este. Eu convivo com a Encenação desde os 16 anos e com esta descontinuidade eu fiquei muito mais sensibilizado pelas pessoas do que pelo espetáculo em si. Para muitas delas é a grande aventura da vida. Poder se ver como centro das atenções, dividindo a cena com grandes atores, é realizador para elas. Sem contar que muitos artistas se profissionalizaram a partir das experiências que tiveram durante o processo de criação do espetáculo. A Encenação precisa ser retomada e será, em outro momento, para que resgatemos todo este processo’.

Cláudia, o Orgone tem hoje mais de 100 premiações em mostras nacionais e internacionais. O público da região entende, valoriza e, mais, frequenta as apresentações e manifestações do grupo?

‘As pessoas da região, sim, gostam, frequentam, valorizam e apoiam. Elas gostam de ser tomadas de assombro, pois as criações do Renato (Renato Di Renzo é o diretor do projeto) são sempre assim, para o público e para os atores. Há sempre algo diferente, inusitado, novo. Mas as pessoas precisam ser informadas e nós sentimos falta de um apoio maior dos veículos de comunicação locais. Nós fazemos a nossa parte na divulgação, mas temos limitações, claro’.  

Toninho, vivemos em uma época de filmes on demand, streaming, quando se pode assistir o que quiser, a hora que quiser. Você acha que a tecnologia prejudica a Cultura, ou, ao contrário, democratiza o acesso à arte?

‘O problema é que da mesma forma que está mais fácil consumir, está mais fácil produzir. E há muita coisa ruim sendo produzida. Se o mercado começar a valorizar as porcarias, temos um grande problema. Isso tem nos feito ficar mais atentos às mudanças e promover melhorias constantes para concorrer com todas estas novas ferramentas’.

Amauri, você também é professor de artes. Deve ser um desafio dobrado ensinar arte em um país que sofre com a educação e que não tem hábito de consumir cultura.

‘Ensinar arte é fácil, não existe resistência. Ensinar matemática é muito mais complicado. A arte desperta a atenção dos alunos de todas as idades, não existe ninguém que não tenha interesse em algum segmento artístico. Nós vivemos arte o tempo todo, ela é inerente à condição humana. O problema é que o ensino da arte no Brasil é mal dimensionado e faltam profissionais qualificados em quantidade para ensinar’.

Cláudia, o Café Teatro Rolidei é a balada dos diferentes?

‘O Rolidei é o lugar onde as pessoas podem ser o que elas são. É um espaço que não traz titulação e que promove o encontro. Na verdade, o Rolidei é o nome fantasia do projeto TAM TAM, porque percebemos um preconceito quando falávamos em TAM TAM, como se fosse um lugar para os louquinhos, esquisitinhos. Somos um espaço multifacetado, que aceita todos os tipos de manifestações e que trabalha os acessos socioculturais e educativos todos os dias para pessoas de 7 a 75 anos. É um espaço agregador, que estimula o olhar para a não-exclusão’.

Amauri, nós somos o berço da história do Brasil, com duas das cidades mais antigas do país na região. Você acha que nós poderíamos nos apropriar mais deste fato para produzir Cultura?

‘São Vicente, na sua formação era um porto, de onde tudo saía e por onde tudo entrava na região, e, com o tempo, nós perdemos esta característica de porto aberto para o mundo. Inclusive culturalmente. Nós nos transformamos em uma ilha, mas uma ilha voltada para si. Nós precisamos voltar a ser este porto aberto para trocas culturais. Isso muda a forma de se produzir arte. Se você pensar que estamos em uma das regiões mais ricas do estado, o que produzimos de cultura é ínfimo. E isso é uma questão de política pública. Nós temos produtos culturais de qualidade em todos os segmentos, que estão ilhados’.  

Toninho Campos complementa – e lamenta – concluindo que a região exporta gente e não produto. ‘Infelizmente’, concordam Cláudia e Amauri.

Cláudia, um espetáculo com tema regional que você gostaria de encenar:
Kasato Maru e a imigração japonesa

Toninho, um filme com tema regional que você gostaria de exibir nas telonas:
Algo que retratasse o estilo particular do santista

Amauri, um espetáculo com tema regional que você gostaria de dirigir:
A história do padre Bartolomeu de Gusmão

“O verdadeiro papel da Cultura na sociedade se perde quando ela vira apenas um negócio”
– Cláudia Alonso

 

“Mais vale uma merda de filme com um puta final do que um puta filme com um final de merda”
– Toninho Campos

 

“Para muitas pessoas, a Encenação é a aventura da vida, é o momento em que ela sabe que existe”
– Amauri Alves

Diego Brígido

Editor da Revista Nove

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