A gentrificação e o não-lugar não têm espaço no turismo pós-pandemia

Por Diego Brígido

Parece que esses meses de isolamento social fizeram surgir temas ‘nunca dantes navegados’, né? Impressão sua, na verdade, muitos assuntos já eram debatidos no pré-pandemia, mas não nos afetavam, então, passavam batidos às nossas viciadas vistas.

Porém, caros amigos, para um pós-pandemia menos traumático, se é que será possível, precisamos falar sobre muita coisa que vinha sendo varrida pra debaixo do tapete do conforto e do ‘amanhã pensamos nisso’.

E, no caso do turismo, desde que eu ocupava a fileira do fundão, próximo à porta, na sala de aula, um assunto dialogava comigo, no entanto, sem me assombrar: os não-lugares. Outro, bem mais recente, também começou a insistir em dar as fuças, mas não me tirava o sono: a gentrificação.

Mas, agora, juntos, num momento de total fragilidade do turismo, ambos podem ser aquele fantasminha que, talvez não nos façam mal, mas também não vão nos deixar dormir, sabe?

Em um artigo anterior, falei sobre como o hiperlocalismo vai ajudar o turismo nos próximos meses; em outro texto, tentamos entender o que buscará o novo turista e como podemos estar preparados para o novo turismo. Aqui, falaremos sobre como os não-lugares e a gentrificação podem estragar esse rolê do turismo na tentativa de retomada.

Vamos entender a gentrificação

Então, primeiramente, vamos aos detalhes: gentrificação é um termo ‘abrasileirado’, que vem do inglês gentry, usado para pessoas ricas, alta burguesia. A palavra gentrification passou a ser usada nos anos 1960, em Londres, quando um grupo de gentriers migrou para um bairro que, até então, abrigava a classe trabalhadora. Isso provocou uma especulação imobiliária no local, aumentando preços, atraindo o turismo e, consequentemente, expulsando os moradores ‘originais’, para abrigar a nova turma que chegava.

Então, a gentrificação pode ser entendida como o processo de enobrecimento, aburguesamento ou elitização de uma área, para onde pessoas com maior poder aquisitivo migram, atraídas por melhorias no local.

Mas, você vai pensar, isso é positivo – e há teóricos que defendem que é mesmo e que é um processo natural, relacionado à revitalização e decorrente da sociedade pós-industrial. Mas, certamente, não é positivo para quem morava na região e teve de deixá-la, seja porque culturalmente não se identificava mais com a nova vizinhança ou porque não tinha mais como bancar o alto custo de vida ali.

Cabe destacar que gentrificação não é revitalização, já que essa segunda sempre é feita atendendo aos interesses da comunidade, buscando oferecer melhor qualidade de vida a todos. Já a primeira, normalmente atende a um grupo específico, privado.

‘Expulsos’ da sua área, os cidadãos vão em busca de novas moradias, geralmente mais afastadas do centro urbano, longe dos empregos e das oportunidades, engrossando o caldo dos problemas sociais da cidade.

Mas e o turismo?

Nem vamos falar aqui das vezes em que a gentrificação provoca a extinção de áreas verdes, em detrimento da expansão imobiliária, além de provocar engarrafamentos, poluição e por aí vai.

Um problema não tão evidente, mas de grande impacto no turismo local é a ambiência fake que a gentrificação cria. Uma vez que regiões não tão bonitas da cidade começam a ser substituídas por espaços cenográficos, com prédios de alto nível e construções padronizadas, que atendem aos interesses das classes média e alta e dos turistas, o tecido urbano original some. E aí, o destino e a comunidade que vive nele e dele depende, como região turística, começam a emular um passado mítico e a representar uma vida que já não existe mais, tudo para agradar aos turistas – e, claro, bancar o custo de vida ali.

Alguns casos típicos são Veneza, que se transformou numa cidade cenográfica, que oferece situações ‘típicas venezianas’, como os passeios de gôndolas ‘pra turista ver’; o Pelourinho, em Salvador, com uma ambiência totalmente criada para o turismo e, também no Brasil, a Costa do Sauípe, um complexo hoteleiro de faz-de-conta, que soterrou boa parte do litoral norte baiano.

E daí surgem os não-lugares

Um conceito criado pelo antropólogo francês Marc Augé, o não-lugar também é difundido em áreas com a sociologia e a geografia. Para ele “se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir com nenhum dos três, é um não-lugar”. Neste caso, o que reina nos não-lugares é a atualidade e a urgência do momento presente.

E aqui vai uma observação importante: Augé constata que o indivíduo, quando longe do seu habitat, muitas vezes, só se reconhece e se sente seguro em lugares ‘estandardizados’, como supermercados, aeroportos e afins, onde o anúncio de uma marca conhecida pode ser tranquilizador. No não-lugar.

Para o sociólogo suíço, Jost Krippendorf, o indivíduo moderno, que vive sob os efeitos e as carências impostas pela sobremodernidade, encara a viagem como um subterfúgio para escapar da escravidão do cotidiano e encontrar a tão almejada ‘liberdade’. Desse modo, o turismo se transforma na indústria da diversão e do prazer, e que o marketing transforma isso tudo em necessidade, visando ao crescimento rápido do volume de vendas, sem se preocupar com o desenvolvimento harmonioso e com a sustentabilidade do destino turístico.

Para Krippendorf, a indústria do turismo transforma o destino em “um universo perfeito demais, artificial, apenas um fragmento, uma montagem que quase sempre está muito distanciada da realidade” e mais, em que “o viajante não aprende nada, ou muito pouco, sobre como realmente é a vida nas regiões visitadas”.

O sociólogo define isso como ‘guetos’, espaços artificializados, construídos para satisfazer o sonho dos turistas, e que não nasceram do desenvolvimento natural de uma aldeia. Essa categoria compreende os novos complexos hoteleiros, parques e até cidades que oferecem ao turista um ambiente exótico, mas sem contato direto com a realidade do lugar. O mesmíssimo conceito de não-lugar de Augé.

Já a geógrafa Ana Fani Alessandri Carlos destaca que, no contexto de espaços artificializados e produzidos como mercadoria para o turismo, onde tudo é muito bem planejado e, de certa forma controlado, a sensação que se tem, é a de um ator atuando em um cenário previamente estabelecido. Ela destaca que “em todos esses lugares, o espetáculo contempla a vitória da mercadoria que produz cenários ilusórios, vigiados, controlados sob aparência de liberdade”

Neste caso, ela está se referindo, especificamente, aos pacotes turísticos que, ao delimitar, programar e vigiar o uso do espaço pelo turista, acaba por banalizar a identidade e a história do lugar. Ou seja, o pacote turístico produz a não-relação, o não-conhecimento e o distanciamento, pois esse olhar orientado e vigiado é também um olhar que predetermina e preconcebe. Para ela, o espaço produzido pela atividade turística é um espaço vazio, isto é, um espaço sem história, sem sentido e sem identidade: Um não-lugar.

E no pós-pandemia…

Como já falei em artigos anteriores (você pode ler este aqui), a tendência para o turismo pós-pandemia é a busca por lugares primeiramente próximos de onde se mora. Mas, mesmo aqueles que se sujeitarem a deslocamentos maiores, buscarão por lugares com identidade, valorizando uma relação mais próxima com a população autóctone, com a vida real da localidade e as experiências genuínas.

O turista do pós-pandemia estará mais humanizado, talvez menos estandardizado e com ímpetos de criar os próprios roteiros e conduzir a sua experiência única, exclusiva. E é exatamente aí que não entram os não-lugares e os espaços ‘gentrificados’. Um desafio e tanto para os fazedores e vendedores do turismo.

Diego Brígido

Editor da Revista Nove | Guia Comer & Beber

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