Silvino: nesse velho armário novo, eu não vou entrar

Fotos: Hugo Vicente

Artista, homossexual, soropositivo e ativista na luta contra a LGBTfobia, Silvino tem 26 anos e é sim – embora ele mesmo não concorde – uma persona referência no movimento LGBT da Baixada Santista.

Vinicius Augusto adotou o nome artístico Silvino, em homenagem ao avô, migrante baiano, de Remanso, que chegou aos 14 anos no Vale do Ribeira, em São Paulo.

“Pode parecer um nome muito masculino para essa minha construção, mas era isso mesmo que eu queria, um nome que conflitasse com a minha imagem”

lança o artista logo no início da nossa conversa, antecipando a enxurrada de quebras de paradigmas que viriam na sequência.

Nosso papo antecedeu um show que ele produziu em parceria com a Comissão de Diversidade Sexual de Santos e a Secretaria de Cultura, onde também se apresentou, na Concha Acústica, em Santos. O ‘Concha Queer’ aconteceu no dia do Combate Mundial à LGBTfobia, 17 de maio, e trouxe Natt Maat e 2DE1, outros músicos LGBT da Baixada Santista.

“Eu sempre fui uma criança viada, afeminada, e sofri muito com isso, claro”

Criado em São Vicente, Silvino se assumiu gay aos 19 anos e aos 23 decidiu se empoderar do próprio corpo, expressão e gênero, quando começou a delinear a imagem com a qual se apresenta hoje.

Sempre esteve envolvido com teatro e compõe músicas desde criança, mas só após ser diagnosticado portador do HIV, no final de 2015, decidiu investir na música profissionalmente. Se inscreveu para a seleção do Conservatório Musical de Cubatão, onde estuda música erudita. Paralelamente a isso, vem construindo sua carreira de cantor e compositor com músicas que falam sobre homossexualidade e HIV.

“Quando recebi o diagnóstico eu não entendia muito bem o estigma que existia, esse tabu social. Quando você tem HIV, você é muito recomendado pelos profissionais da saúde a viver no anonimato, é como se houvesse uma higienização da sua sexualidade”

E foi justamente para sair desse anonimato e reverberar um assunto hipocritamente velado pela sociedade, que Silvino lançou o clipe ‘Olhos Amarelos’. Ele resolveu cantar sobre ser gay e soropositivo em uma sociedade enterrada em preconceitos, que segrega os diferentes. E para lançar a música, era preciso assumir o seu estado sorológico. Fez, com muita coragem!

“O clipe Olhos Amarelos incomoda porque ele é um clipe sexual, que fala do HIV, mostra que corpos com HIV transitam pelo mundo”

Silvino fez um curso de ativismo em São Paulo e lá entrou em contato com outros ativistas que já fazem arte sobre HIV. Após essa experiência e o contato com o ensaio da escritora norte-americana Susan Sontag ‘AIDS e suas metáforas’, o cantor decidiu viver da AIDS, fazer do HIV a sua arte.

“É muito injusto uma pessoa com HIV carregar esse peso, um monstro criado para reprimir sexualidade, identidades e afetividades. Esse preço é muito alto e eu decidi não paga-lo sozinho”

Para ele, o clipe de Olhos Amarelos vem com função de ampliar a discussão sobre o tema e chamar a atenção das minorias para as metáforas da AIDS.

“O clipe vem para dizer o seguinte: se você é um LGBT, se você é uma pessoa preta ou se você é uma mulher, mesmo que você não viva com HIV, a AIDS reprimiu o seu corpo, então ela deve ser uma pauta sua também”

“Silvino – pergunto eu – quando você resolve se colocar como alguém soropositivo por meio da música, você está assumindo o risco de ter a vida amorosa tolhida. Tudo bem isso pra você”?

E a resposta:

“Eu tinha um objetivo maior quando tomei essa decisão e resolvi pagar o preço. Depois que fiz, refleti um pouco sobre esse risco, mas eu precisava fazer e pretendo gravar um CD no próximo ano que será todo pautado pela AIDS”

Encerramos a entrevista, o show começou, a Concha lotou e, ao menos os moradores dos prédios da redondeza, souberam que, sim, pessoas com HIV circulam pela cidade, fazem arte e merecem respeito tanto quanto qualquer outra.

Colabore

Colabore

Silvino lançou uma vaquinha virtual para angariar recursos para a produção de um novo clipe-manifesto, Húmus, que fala sobre a ancestralidade LGBT a algumas pautas políticas importantes para o movimento. O clipe vai ser gravado na Praça dos Andradas e vai haver uma convocatória para as pessoas LGBT participarem das filmagens.

Você pode colaborar por esse endereço > www.vakinha.com.br/vaquinha/manifesto-humus.

Diego Brígido

Editor da Revista Nove