Em becos, palafitas, vielas e praias que raramente aparecem além da urgência policial, uma câmera muda o enquadramento
Atualizada em 23.02.2026
Na Baixada Santista, o chamado ‘Cinema de Quebrada’ cresce como movimento cultural, político e estético, construído por quem vive o território e decide contar suas próprias histórias.
Mais do que produzir filmes, coletivos e realizadores da região disputam narrativas, formam novos profissionais e fortalecem redes que transformam o audiovisual em ferramenta de autoestima, geração de renda e memória.
O que é ‘Cinema de Quebrada’?
O termo se refere à produção audiovisual realizada por moradores e coletivos das periferias, a partir de suas próprias vivências, territórios e identidades. Mais do que uma categoria estética, trata-se de um posicionamento político e cultural.
Caracterizado pela produção independente, muitas vezes com orçamentos reduzidos e redes colaborativas, o Cinema de Quebrada rompe com a lógica tradicional da mídia, que historicamente retratou as periferias apenas sob a ótica da violência ou da carência.
Ao assumir a câmera, realizadores periféricos constroem narrativas próprias sobre cotidiano, afeto, cultura, memória e resistência. A quebrada deixa de ser cenário exótico ou objeto de observação e passa a ser sujeito da própria história.
Para Natalia Cristine, produtora audiovisual do Nois das Palafitas e do Visão de Perifa Filmes, o cinema de quebrada nasce da necessidade de romper estereótipos:
“O Cinema de Quebrada para mim é um ato de resistência e quebra de estereótipos. É uma forma lúdica de fazer com que histórias sobre o nosso cotidiano e nossa cultura sejam contadas pelos protagonistas.”
Já para Marcelo Pereira, diretor, filmmaker e produtor da Quebra Filmes, o cinema periférico nasce da urgência da voz:
“O Cinema de Quebrada para mim é um cinema que nasce a partir da necessidade de se contar uma história, da necessidade de ser ouvido e de querer dizer algo. A minha relação com o cinema surge a partir do rap, que também vem desse encontro da voz da quebrada que tem algo a dizer, muitas vezes para a própria quebrada.”
Se para alguns é resistência, para outros é comunicação direta entre iguais. Em comum, está a autonomia de fala.
Território como roteiro
A Baixada Santista, marcada pelos contrastes entre o litoral turístico e periferias historicamente invisibilizadas, tornou-se cenário e personagem dessas produções.
“A Baixada Santista é um celeiro de grandes histórias que se entrelaçam entre o passado, o presente e o futuro. Cada canto da cidade, cada paisagem e cada quebrada tem muitas histórias que necessitam ser contadas”, afirma Natalia.
Marcelo reforça que seu trabalho é atravessado integralmente pelo território:
“Não tem como falar do meu trampo sem falar da Baixada Santista. Eu nasci, fui criado aqui. Meu trabalho nasce enquanto eu vivencio a Baixada, enquanto tomo um enquadro na Operação Verão, enquanto colo na praia de Santos e vejo uma coisa, e na Zona Noroeste vejo outra totalmente diferente. Toda essa desigualdade serve de combustível para o trampo rodar.”
A experiência concreta, da praia à palafita, do turismo à desigualdade, se transforma em narrativa. Só quem vive o cotidiano da periferia pode narrar, com propriedade, tanto o horror de um incêndio quanto a beleza de uma roda de conversa, de um baile, de uma infância resistente.
Formação, trabalho e geração de renda
A atuação do Nois das Palafitas e do Visão de Perifa Filmes mostra que o cinema de quebrada vai além da produção artística.
O Nois das Palafitas atua como receptivo audiovisual na comunidade, inserindo moradores em diferentes funções nos sets, segurança, catering, serviços gerais, figuração e apoio técnico. Já o Visão de Perifa trabalha na formação de novos produtores audiovisuais.
A trajetória de Natalia com o audiovisual começou em 2019, após participar de uma oficina do Instituto Querô, projeto de formação gratuita de jovens da periferia na região.
“Produzir audiovisual na periferia é um ato político. É uma intervenção social que visa dar voz às minorias”, destaca Natalia.
Marcelo também aponta o impacto direto na juventude:
“Se eu já servi de exemplo para um jovem da quebrada para que ele não siga no mundo do crime e veja possibilidade na arte e no audiovisual, eu acredito que minha missão já está cumprida.”
Para Marcelo, o impacto maior surge quando novas gerações passam a enxergar a arte como caminho possível, uma alternativa ao destino social muitas vezes imposto.
Instituto Querô na formação audiovisual
Criado na Baixada Santista, o Instituto Querô é uma das principais iniciativas de formação gratuita em audiovisual para jovens de comunidades periféricas da região. O projeto oferece capacitação técnica e artística, possibilitando que novos realizadores tenham acesso a conhecimentos de roteiro, direção, produção e edição.
Além de formar profissionais, o instituto contribui para ampliar o repertório cultural e criar oportunidades de inserção no mercado de trabalho, fortalecendo o ecossistema do cinema independente local. Muitos coletivos e produtores que hoje atuam na região passaram por suas oficinas e projetos formativos, criando um ciclo contínuo de aprendizado e multiplicação de saberes.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse impacto é o filme Sócrates (2018), dirigido por Alexandre Moratto, que narra a história de um jovem negro de 15 anos que vive na periferia de Santos e precisa reconstruir a própria vida após a morte repentina da mãe.
O protagonista Sócrates é interpretado por Christian Malheiros, ator santista revelado pelo próprio Instituto Querô. Sua atuação rendeu projeção internacional e indicação a Melhor Ator no Film Independent Spirit Awards, além de abrir caminho para trabalhos posteriores em produções como ‘Sintonia’ e ‘7 Prisioneiros’.
O filme não apenas revelou talentos, mas também consolidou o instituto como agente ativo na produção cultural brasileira, demonstrando que a periferia não é apenas cenário, é também autora de suas próprias narrativas.
Imagem como disputa de narrativa
Se a câmera em movimento constrói histórias, a fotografia estrutura o olhar. Para a fotógrafa Bete Nagô, o diálogo entre fotografia e cinema periférico é essencial.
“A fotografia é base do cinema periférico porque ensina a olhar antes de filmar. No cinema feito na periferia, a fotografia não é só estética, é memória, é prova de existência, é disputa de narrativa.”
Segundo Bete, cada imagem carrega uma escolha política. Para ela, apontar a câmera é um gesto político, especialmente em territórios historicamente silenciados, porque quem filma decide o que entra em cena, o que fica de fora e quais vozes serão respeitadas.
Quando a periferia passa a se registrar a partir do próprio olhar, essa lógica se transforma. O território deixa de ser objeto de observação externa e passa a ocupar o lugar de sujeito da narrativa. O cotidiano, antes reduzido à violência e à carência, revela também criação, cuidado, trabalho, sonho e resistência.
Bete defende que ainda é preciso ampliar o tipo de imagem construída sobre a Baixada:
“Falta mostrar mais a Baixada para além da urgência, com mais pausa, mais escuta e mais humanidade.”
Existe uma estética própria da quebrada?
Para Marcelo, a estética nasce da necessidade.
“Eu nunca tive estabilizador. Sempre gravei na mão. Como os takes tremiam, desenvolvi uma edição mais dinâmica, cortando dois segundos aqui, dois ali. Minha linguagem surgiu da falta de equipamento.”
O mesmo vale para o uso de VHS, granulações, mistura de resoluções, imagens de celular e câmeras antigas. O que poderia ser considerado erro técnico vira linguagem.
“A estética da quebrada surge da necessidade. A gente transforma falha em conceito. Se tiver conceito, dá para fazer cinema até com um celular simples.”
Essa criatividade moldada pela limitação cria uma linguagem própria — dinâmica, híbrida, marcada por colagens visuais, cortes rápidos e apropriação estética.
Cinema como memória e identidade
O cinema também atua como arquivo afetivo e político da cidade. Para Marcelo, ele sempre foi uma ferramenta de memória, já que toda produção carrega marcas do contexto social e do tempo em que foi realizada. Cada obra, seja documental ou ficcional, registra não apenas uma história, mas também o olhar de quem vive aquele momento e aquele território, preservando experiências que muitas vezes não aparecem nos arquivos oficiais.
Registrar histórias que ficam fora dos arquivos oficiais é, para ele, uma afirmação de existência:
“O que me move é botar a nossa voz no mundo e dizer: “estamos aqui, estamos vivos”. Muitas vezes a mídia tem interesses próprios e distorce a realidade. O meu cinema parte de um olhar de dentro para fora. É dizer: aqui onde eu vivo é assim.”
Marcelo também reflete sobre identidade periférica e imaginário coletivo:
“A identidade periférica é construída a partir das referências que a gente consome. Se você só consome notícia sobre violência, seu imaginário vai ser construído a partir disso. Quando a gente conta nossas próprias histórias, a gente cria um contraponto ao que a sociedade diz que nós somos, e mostra o que realmente somos.”
Ao produzir imagens desde dentro, o Cinema de Quebrada constrói memória para as próximas gerações.
Fotos: Bete Nagô, Natalia Cristine e Marcelo Pereira