Celebrado em 30 de janeiro, o Dia do Quadrinho Brasileiro é uma oportunidade para olhar além dos grandes centros editoriais e reconhecer regiões que constroem, diariamente, a diversidade das histórias em quadrinhos no país.
Atualizada em 29.01.2026
Na Baixada Santista, o litoral, a cultura caiçara, a memória urbana e o cotidiano das cidades se transformam em narrativas gráficas, enquanto artistas locais conquistam reconhecimento nacional e fortalecem uma cena autoral ativa e pulsante.
Dia do Quadrinho Brasileiro
Celebrado em 30 de janeiro, o Dia do Quadrinho Brasileiro marca o nascimento oficial das HQs no país e reforça a importância da produção nacional como expressão cultural, artística e histórica. A data valoriza tanto os grandes nomes consagrados quanto as cenas regionais e independentes, que ajudam a ampliar narrativas, estéticas e representatividade, como acontece na Baixada Santista, onde o território, a memória urbana e o cotidiano se transformam em histórias contadas em quadros e balões.
A Baixada como cenário e personagem
Praias, canais, o porto, a mureta e a arquitetura histórica de Santos e cidades vizinhas não aparecem apenas como pano de fundo, mas como parte essencial das histórias. Um dos exemplos mais emblemáticos é ‘Monstros Silenciosos’, de Gustavo Duarte, uma HQ muda que retrata a invasão do litoral santista por criaturas gigantes, inspiradas no cinema japonês. A narrativa percorre pontos icônicos da cidade e acompanha Seu Pinon, dono de um bar local, em meio ao caos provocado pelos monstros.
Outra produção com forte identidade regional é ‘Hurulla’, de Clayton Inlôco, que dialoga com elementos culturais da Baixada Santista e reforça a força da produção independente local. Já ‘Anarquia’, criada pelo santista Emilio Baraçal, é um exemplo de obra que circula com destaque na cena geek da região.
A relação entre HQ e território também se manifesta em projetos de caráter histórico e educativo, como ‘História de Cubatão em Quadrinhos’, que apresenta a trajetória do município em linguagem acessível e visual. Até personagens consagrados do imaginário brasileiro já passaram pelo litoral: em ‘Um dia na praia’, da Turma da Mônica, Cascão e seus amigos vivem uma história ambientada na praia, cenário familiar ao público da região.
“De todas as formas possiveis e imagináveis! Nossa relação com o mar, com a cultura de praia, com as diferenças culturais de cada cidade da região (sou de São Vicente). E cada uma tem sua ‘pegada’, embora com muitas semelhanças. E sempre gosto de colocar nas minhas histórias toda essa cultura própria nossa. E muito pão de cará!”, comentou o Quadrinista e Ilustrador, Clayton Inlôco.
Talentos que ultrapassam fronteiras
Além de cenário, a Baixada Santista é reconhecida como celeiro de talentos nas histórias em quadrinhos. Gustavo Duarte é hoje um dos nomes mais conhecidos do país, com obras como ‘Monstros!’, ‘Có!’ e histórias do ‘Chico Bento’, frequentemente inspiradas na paisagem urbana e costeira de Santos e São Vicente.
A região também abriga pesquisadoras e autoras premiadas, como Dani Marino e Laluña Machado, vencedoras do Troféu HQMIX pelo livro ‘Mulheres e Quadrinhos’, considerado um marco na valorização da produção feminina no Brasil.
Entre os artistas formados na região está o cartunista ‘Bar’ Barbosa, que iniciou sua trajetória a partir do contato com ilustrações, charges e tiras dos jornais locais, caminho que o levou aos quadrinhos e à formação em Comunicação, em 1984, na Universidade Católica de Santos, onde também passou a produzir HQs de forma independente.
“Eu sempre gostei de quadrinhos e acompanhava os jornais da cidade. Isso me fez me interessar pelas ilustrações e tiras do jornal e pensar que esse era um caminho para chegar aos quadrinhos”, afirma o ‘Bar’.
Outros nomes ajudam a compor esse mosaico criativo, como Paulo Crumbim, autor de ‘Gusmão’ e reconhecido nacionalmente, André Alonso, que iniciou sua trajetória na região, e Denis Dym, que utiliza Santos como cenário recorrente de suas histórias.
Iniciativas, eventos e espaços de fomento
A cena local também se fortalece por meio de iniciativas coletivas e eventos. A ‘ZAP! HQ’ surgiu em Santos com o objetivo de fomentar a produção independente e criar redes entre artistas. Já a ‘Mostra HQ Caiçara’ se consolidou como um espaço de celebração e visibilidade para os quadrinhos produzidos na região.
No campo editorial, a Kaiju Editora, fundada em 2022, aposta no mercado criativo da Baixada Santista e amplia as possibilidades de publicação para autores locais.
Outro ponto central dessa engrenagem cultural é a Gibiteca Municipal de Santos, localizada no Posto 4 da orla do Boqueirão. O espaço funciona como referência para leitores, artistas e pesquisadores, além de sediar eventos, encontros e atividades formativas ligadas ao universo das HQs.
“Trabalhamos a Gibiteca como uma biblioteca viva, com acervo diverso, exposições, lançamentos, debates e oficinas, promovendo a interação entre artistas e público e estimulando a formação de novos leitores e quadrinistas.”, comenta Narayana Fida, responsável pela Gibiteca.
Um elemento fundamental que fortalece a cultura dos quadrinhos na Baixada Santista é o ‘Santos Festival Geek’, que se consolidou como um dos principais encontros da cultura pop e geek da região. O evento reúne quadrinistas, ilustradores, cosplayers, editoras independentes e fãs, funcionando como vitrine para a produção local e espaço de contato direto entre artistas e público.
Ao abrir espaço para lançamentos, debates e circulação de obras autorais, o festival contribui para ampliar o alcance dos quadrinhos produzidos na Baixada e para formar novos leitores em um ambiente acessível e plural.
Quadrinhos, território e formação cultural
Para a pesquisadora teórica de histórias em quadrinhos Laluña Machado, a produção de HQs na Baixada Santista amplia a compreensão dos quadrinhos brasileiros como linguagem cultural ao evidenciar que essas narrativas não se constroem apenas nos grandes centros ou a partir do mercado editorial, mas também por meio de trajetórias locais, espaços culturais e processos formativos profundamente enraizados no território.
Um breve resgate histórico ajuda a compreender essa força regional. Santos é a cidade de Patrícia Galvão, a Pagu, uma das primeiras mulheres cartunistas do Brasil. Desde o início do século XX, Pagu utilizou o desenho e a caricatura como ferramentas de crítica social e política, afirmando o humor gráfico e os quadrinhos como formas legítimas de expressão cultural.
Esse legado se conecta à produção contemporânea da região por meio de Fábio Coala, autor da graphic novel ‘Horácio: Mãe’, publicada pelo selo Graphic MSP. A obra evidencia como a Baixada Santista é capaz de formar autores que participam de projetos editoriais de grande visibilidade nacional sem abrir mão de uma abordagem autoral e sensível.
“A produção de quadrinhos na Baixada Santista mostra que os quadrinhos brasileiros não se constroem apenas nos grandes centros ou no mercado editorial, mas também a partir de trajetórias locais, espaços culturais e processos formativos profundamente enraizados no território”, afirma Laluña Machado.
Identidade, memória e futuro
No Dia do Quadrinho Brasileiro, a produção da Baixada Santista evidencia que as histórias em quadrinhos nacionais são feitas de múltiplos territórios, vozes e experiências. Entre monstros gigantes, narrativas históricas, pesquisas acadêmicas e publicações independentes, o litoral paulista segue desenhando sua própria identidade no papel, e reafirmando que a cultura dos quadrinhos também nasce, cresce e se reinventa à beira-mar.
Foto: ‘O BAR’/Clayton Inlôco/Carlos Nogueira