A Cris, do quiosque

Você pode até não frequentar, mas certamente já ouviu muito sobre o Quiosque da Cris, na Praia do Itararé, em São Vicente.

Especializado no público LGBT, esse cantinho, próximo à Ilha Porchat, acolhe, na verdade, todos os públicos com o carinhoso e personalizado atendimento da Cris. Então, de verdade, você não precisa ser lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual, transgênero, crossdresser ou drag queen para se sentir à vontade no Quiosque da Cris.

Cristiane Margarida Lopes Lorca começou a frequentar São Vicente em 1986, quando saiu de Pirajuí, no interior de São Paulo, cidade onde nasceu. Se instalou no litoral e comprou um carrinho para vender pastéis na praia, na época em que a orla ainda era tomada pelos trailers de lanches.

Se encantou por um trailer cor de rosa que estava fechado e conseguiu arrendar dos donos, que eram de São Paulo. Migrou do carrinho para o trailer, que recebeu o nome de Mudança Radical e ganhou a famosa bandeira do arco-íris.

Por ser gay, Cris começou a atrair seus amigos e um público LGBT ao novo espaço, onde ficou por 15 anos, dedicada a este segmento. ‘Apesar de ter me especializado neste público, nunca deixei de receber meus clientes do carrinho de pastel e até hoje recebemos vovôs, vovós, netinhos, famílias e casais heterossexuais aqui no quiosque’, alegra-se.

Quiosque da Cris

Quando aconteceu a reurbanização da orla, os trailers foram retirados e cada proprietário tinha direito a concessão de um quiosque. Cris conseguiu comprar dos antigos proprietários o quiosque e mudou, então, o nome para Quiosque da Cris. ‘Durante a reurbanização, nós ficamos três meses sem trabalhar, então todos os dias eu sentava numa cadeira na praia e dizia para as pessoas que passavam: olha, é ali que vai ser o Mudança Radical’, lembra emocionada.

Nesta transição, Cris assumiu, então, a sua orientação sexual e, no começo, perdeu parte do público que frequentava o carrinho de pastel. ‘As pessoas precisaram de um tempo para se acostumar com a ideia. Mas depois todos voltaram a frequentar o quiosque, pois eu faço questão de manter um ambiente de família e exijo que haja respeito aqui’.

O Quiosque da Cris – ou Barraca da Cris, como muitos ainda chamam – é conhecido no Brasil inteiro e recebe, inclusive, turistas de vários lugares do mundo. Cristiane é uma precursora em atender o público LGBT na Baixada Santista, mas essa conquista não veio sem muito sacrifício, preconceito e luta para manter seu negócio de pé. ‘Já apanhei de skinhead e fui parar várias vezes na delegacia, por causa do preconceito’.

O ambiente acolhedor, familiar e o atendimento personalizado ajudaram a cativar o público que o quiosque recebe hoje. Cris está praticamente todos os dias por lá – e, é bom lembrar, tem o respaldo da esposa e parceira, Elisa, com quem é casada há 14 anos – e faz questão de cumprimentar todos os clientes nas mesas, com um carinhoso beijo e um brilho no olhar de quem sabe que está no caminho certo.

Nos finais de semana com sol, o quiosque recebe até seis mil pessoas e mantém 15 funcionários treinados para atender todos os públicos, sem distinção. ‘Eu sempre digo aos meus clientes: você é muito bem-vindo aqui, eu adoro cuidar de você, mas respeite a minha casa, aqui é um ambiente familiar’.

Certamente, é por isso que no Quiosque da Cris todos os públicos se entendem, se respeitam e convivem em paz. Além de gerir de perto o negócio, Cristiane ainda vai para a cozinha, preparar lanches, porções ou bebidas, quando os clientes pedem.

Pé na areia

O Quiosque da Cris também ganhou uma extensão pé-na-areia, uma barraca administrada por Elisa, com cadeiras, guarda-sóis e mesinhas. ‘Durante o dia, a barraca enche antes do quiosque e as pessoas ficam aqui esperando vaga para ficar no nosso pé-na-areia’.

‘Mas então é o Complexo da Cris e não mais o Quiosque da Cris’, brinco com ela. ‘Sim, e quem sabe, em breve, colocamos um iate da Cris aqui na frente’, rebate.

Vida longa aos negócios da Cris, que têm feito tanto pelo respeito à diversidade!