Patrícia Galvão, a Pagu

Porque nem toda brasileira é bunda

A frase do título pertence a música de Rita Lee e Zélia Duncan, que leva o nome de Pagu e eterniza sua importância na militância política e no cenário cultural brasileiro.

Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi um dos ícones do movimento modernista no Brasil e se destacou como escritora, jornalista, poeta, diretora de teatro, desenhista, e sobretudo agitadora cultural, feminista e militante política.

A primeira brasileira no século 20 a ser presa política teve uma vida curta, mas intensa, de lutas e entrega. Morreu em 1962, aos 52 anos, vítima de um câncer, que a levou, inclusive, a uma tentativa de suicídio.

Ainda antes de ser Pagu, Patrícia Galvão já era considerada uma menina avançada para a época, pois tinha comportamentos que não condiziam com sua educação conservadora. Fumava na rua, falava palavrões e usava blusas transparentes e cabelos curtos e eriçados.

Um pouco de história

Aos 15 anos, enquanto estudava para ser professora, passou a escrever para um jornal de bairro, em São Paulo, e frequentou o Conservatório Dramático e Musical, onde teve aulas com Mário de Andrade e Fernando Mendes de Almeida.

Com 19, por intermédio de Raul Bopp, conheceu o casal de modernistas Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que a introduziram no movimento antropofágico. Teria sido Raul o inventor de seu apelido, por achar que seu nome era Patrícia Goulart. No poema ‘Coco de Pagu’, usa o codinome, que viria se eternizar, pela primeira vez.

Pouco tempo depois, Oswald separou-se de Tarsila e casou-se com Pagu, que já esperava um filho seu, Rudá de Andrade. Alguns meses após o parto, Patrícia Galvão foi a Montevidéu, no Uruguai, participar de um festival de poesia, quando conheceu o líder comunista Luis Carlos prestes.

Ao voltar para o Brasil, Pagu e Oswald se filiaram ao Partido Comunista (PCB) e fundaram o jornal de esquerda ‘O Homem do Povo’. No mesmo ano, em 1931, ela é presa em Santos, ao participar de um comício, durante uma greve dos estivadores, e levada para um cárcere na Praça dos Andradas, conhecido hoje como Cadeia Velha, onde funciona um centro cultural que leva o seu nome.

No ano seguinte, Pagu foi morar em uma vila operária no Rio de Janeiro, onde trabalhou como proletária e escreveu o romance proletário Parque Industrial, assinado por Mara Lobo, pseudônimo exigido pelo Partido Comunista, além de uma peça de teatro baseada nele.

Em seguida, começou a viajar pelo mundo como correspondente de jornais cariocas e paulistanos. Na China, cria vínculos com o último imperador, Pu-Yi, de quem consegue as sementes de soja que iniciam a cultura do cereal no Brasil.

Também trabalhou em Paris, como jornalista e tradutora de filmes, onde foi ferida em manifestações de rua e presa três vezes. Nos anos que se seguiram, foi levada para a prisão diversas vezes pelo governo getulista no Brasil, mas continuou uma intensa produção cultural.

Em 1940, já separada de Oswald de Andrade, casou-se com Geraldo Ferraz, com quem tem o seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz. Em São Paulo, publicou crônicas em A Noite, sob o pseudônimo Ariel, além de contos policiais para a revista Detective e outros romances, como A Famosa Revista, em parceria com Geraldo Ferraz.

Pagu também foi candidata à deputada federal, pelo Partido Socialista Brasileiro, e escreveu outras obras, incluindo a peça Fuga e Variações.

Em Santos

Quando veio morar em São Vicente e em Santos, em 1964, começou a trabalhar para o jornal A Tribuna, onde assinava uma das primeiras colunas de TV no Brasil, com o pseudônimo Gim.

Por aqui, também incentivou o teatro de vanguarda, quando coordenou a primeira edição do Festival do Teatro Amador de Santos e Litoral.

Em setembro de 1962, Pagu voltou a Paris para se submeter a uma cirurgia em decorrência do câncer. A operação não deu certo e ela tentou o suicídio, sem sucesso. Em dezembro, já muito debilitada, publicou o seu último texto em A Tribuna, o poema Nothing, às vésperas de sua morte, em Santos.

Conforme aponta a professora Lúcia Maria Teixeira, pesquisadora de Pagu desde 1988, “Ela sempre sonhou entregar-se totalmente, sem limites, até a aniquilação, ao amor, a uma causa, à vida e até à própria morte”.

Eh Pagú eh!

Pagú tem uns olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-coco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagú eh!
Dói porque é bom de fazer doer (…)

[poema ‘Coco de Pagu’, de Raul Bopp, dedicado a ela, em 1928]