Ivan di Ferraz

Fotos: Christian Jauch

A história de um cordelista apaixonado.

Nascido no pequeno povoado de Bacabinha, hoje município de Paulo Ramos, no interior do Maranhão, ele cresceu ainda mais afastado da cidade. Seus pais – um morador do povoado e uma índia analfabeta – se separaram assim que ele nasceu, então a mãe e ele foram morar com uma prima dela na fazenda.

Aprendeu a ler e escrever sozinho, com romances que a mãe comprava para ele. ‘Na comunidade, havia sempre alguém que sabia ler e escrever melhor e esta pessoa se propunha a ensinar os outros’, conta Ivan, que passou a ler as histórias para os moradores do vilarejo.

No início dos anos 1970 voltaram para Paulo Ramos e, próximo de completar 18 anos, como a maioria dos jovens daquela região, ele resolveu tentar a vida fora do Nordeste. Aí começou a saga de Ivan di Ferraz para viver da sua arte.

A busca pela paixão

‘A primeira tentativa foi tão difícil, que fiquei apenas um mês em Brasília e voltei pra casa. Mas aí percebi que na minha cidade seria mais difícil ainda e parti de vez’. Ivan ficou entre São Paulo e Brasília, trabalhando na construção civil e em fábricas. Mas o trabalho braçal não animava o jovem, que já pensava na música.

‘No meu povoado, quando tinha festa, eu não queria dançar, queria ficar junto dos músicos para aprender a tocar’. Em Brasília e São Paulo trabalhou em bares e restaurantes, para interagir mais com as pessoas.

Foi morar em pensões no centro de São Paulo, onde conheceu outras pessoas que lutavam para viver de arte. No início dos anos 1980 começou a se reunir com músicos na Praça da Sé e ali passou a entender que queria mesmo viver da sua paixão.

Porém, em 1983, o sonho foi interrompido com um casamento seguido do nascimento da primeira filha. Neste período ainda conseguiu fazer um curso de cabeleireiro durante o horário de almoço do trabalho. Ficou cinco anos afastado da música e quando o casamento acabou precisou recomeçar a batalha. ‘Foi outro período muito difícil, pois saí da separação apenas com a roupa do corpo’.

Em 1989 um primo que morava em Santos o convidou para ir à cidade e assim Ivan partiu mais uma vez, de mala e viola nas costas. O primeiro emprego no litoral foi em um salão de snooker e foi ali, preparando as bebidas, que ele resolveu fazer um curso de barman e conquistou o seu segundo certificado.

No início dos anos 1990 casou-se novamente e nos anos que seguiram fez cursos de canto, violão, teoria musical, teatro e inglês. Também se formou como técnico em turismo e guia regional.

A descoberta da Fortaleza

‘Um dia, vi uma placa que recrutava voluntários como monitores da Fortaleza da Barra Grande’ e, embora estivesse desempregado, Ivan aceitou o estágio não-remunerado. Passou a viver das gorjetas que as pessoas davam ao final das monitorias.

Foi contratado pela prefeitura de Guarujá e se mantém até hoje fazendo um duplo e poético trabalho na Fortaleza. Ivan descobriu no equipamento uma maneira de colocar sua paixão em prática e traz um pouco do cordel para contar a história do local aos visitantes.

‘A primeira música que fiz foi o Hino da Fortaleza para um trabalho com as crianças que visitavam o local’. A ideia caiu no gosto dos gestores e passou a atrair mais visitantes. Hoje, o cordelista é um grande diferencial do equipamento turístico, que, além da beleza arquitetônica, oferece uma vista deslumbrante da orla da praia santista.

De onde vem a inspiração para as letras? – perguntamos. ‘Da minha rotina, do meu percurso entre a Fortaleza e minha casa, na Praia do Góes’. Ivan caminha 15 minutos por uma trilha, na ida e na volta do trabalho, todos os dias, beirando o mar, em meio à mata atlântica. ‘Tem sombra, sol, suor, pedra, ladeira e nascente. Tem tudo no meu caminho’.

Você pode conhecer o Ivan na Fortaleza da Barra Grande, de quarta a sábado, das 9h às 17h e domingo, das 9h às 14h. A entrada é gratuita.

“Eu vou continuar, tocando, tentando e querendo que meu trabalho seja reconhecido de uma forma mais ampla”

Diego Brígido

Editor da Revista Nove