Pepe Altstut: apaixonado por Santos

Fotos: Odjair Baena

O sotaque carregado não nega a origem argentina, mesmo morando há 53 anos no Brasil.

José Salomon Altstut, o Pepe Altstut, veio para cá em 1963, aos 23 anos, a convite do pai que aqui morava. Apenas na terceira visita ao país, aos 25 anos, quando conheceu Santos – e se apaixonou pela cidade – decidiu tentar a vida longe de casa, mas, por no máximo um ano, e depois voltaria para a Argentina. O carinho com que foi recebido pelos santistas e a vocação esportiva da cidade encantaram Pepe, que não deixou Santos. Recém-chegado à cidade foi convidado para ser diretor de esportes do Caiçara Clube e passou a integrar a equipe de caça-submarina. Dois anos depois começou a construir um prédio em parceria com um amigo e de lá para cá se tornou um dos principais e mais queridos empresários santistas.

Confira a entrevista

Quando decidiu se estabelecer em Santos, ainda jovem, qual foi sua primeira aposta profissional?

Foi a construção civil. Comecei em uma imobiliária de um amigo e aí decidimos construir a primeira casa e em seguida um pequeno prédio. Crescemos pouco na época, mas com segurança e muita alegria. Foi um momento feliz em minha vida, em que eu defendi Santos em várias modalidades esportivas, como a caça-submarina, o ciclismo e o tamboréu.

Quase 20 anos após se estabelecer em Santos, surge a ideia de construir um cemitério vertical. Como se deu isso?

A ideia surgiu após eu assistir ao sepultamento do pai de um amigo querido, um homem íntegro, que foi sepultado na lama, em função do problema que temos com lençol freático. Aquilo mexeu comigo e pensei que era necessário criar um lugar digno para as pessoas findarem a vida. Como não haveria espaço em Santos para um amplo cemitério, surgiu a ideia de fazer um cemitério vertical. Começamos com um prédio de dez andares e aos poucos fomos ampliando. Hoje somos o maior cemitério vertical do mundo, segundo o Guiness Book of Records, e o mais visitado também, com 17 mil lóculos, com capacidade para um corpo e cinco ossadas cada. Estamos construindo um novo prédio, com previsão de 22 andares, totalizando 25 mil lóculos.

O Memorial Necrópole Ecumênica não lembra em nada um cemitério. É um lugar aprazível e bonito, em meio à natureza e com infraestrutura diferenciada. O que se busca com isso?

O momento mais triste da vida de uma pessoa é a despedida de um ente querido, mesmo quando a morte já é esperada. Nossa ideia é minimizar o sofrimento, proporcionando um ambiente agradável, que em nada lembra um lugar fúnebre. Eu aprendi no Brasil, com a receptividade que tive ao chegar a Santos, que todos somos iguais e por isso no Memorial os lóculos são padronizados para que ninguém se sobressaia e para que se tenha um ambiente discreto. Não são permitidos adereços, fotografias e nem homenagens exageradas. As flores são permitidas em datas especiais, mas nós as retiramos no dia seguinte. Isso me faz perder muitas vendas, mas no Memorial são todos iguais, porque somos todos iguais perante Deus.

Uma das curiosidades é a exposição de carros antigos dentro do Memorial. De onde surgiu esta ideia?

Eu sou apreciador de automóveis antigos e certa vez mandei um dos meus carros para restaurar. Quando foi entregue, o deixaram no Memorial e lá ficou durante um dia todo. Ele começou a chamar a atenção dos visitantes e então levei os meus outros carros para lá. O curioso é que as pessoas gostam de olhar os carros porque sempre lembram de alguém querido e isso ajuda a tirar o foco daquele momento de tristeza.

Além de playground, lanchonete, lago com carpas, viveiro de pássaros, suítes para os familiares, outro diferencial é a visita de um cão que traz mensagens àqueles que estão velando alguém. Como é isso?

É um cãozinho treinado que traz mensagens de conforto no bolso do seu colete. Ele adentra os velórios, se for bem-vindo, e transmite muito amor aos familiares e amigos. Eu tenho muito carinho pelos cachorros, tenho três em casa que sempre vêm trabalhar comigo e no Memorial temos um canil com animais que resgatamos nas ruas e um veterinário que cuida de todos eles.

Foi este amor pelos pets que o fez construir também o Pet Memorial em São Bernardo do Campo?

Sim, foi o primeiro pet memorial da América Latina, construído em 1990. É um crematório, que tem velório e uma capela de São Francisco de Assis. Nós fazemos, em média, 700 cremações e 70 velórios por mês. Buscamos o animalzinho em casa, cremamos e devolvemos a urna, no caso de a família não querer velar.

O Grupo Altstut lançou em 2012 a Brilho Infinito, que faz algo bastante inusitado. Conte-nos sobre esta novidade.

A Brilho Infinito surgiu, pois, após pesquisas, me dei conta de que a única coisa que você pode guardar para sempre do ente querido, com exceção daquilo que é material, é o cabelo. Então, por um processo químico, nós transformamos o cabelo em carbono e por um outro processo acelerado, transforma-se o carbono em diamante. O processo é o mesmo que acontece na natureza com o carbono, porém, mais rápido. Estes diamantes são catalogados da mesma maneira que se cataloga os diamantes naturais. A primeira experiência fizemos com o cabelo do Pelé e hoje temos uma boa demanda para este serviço. O processo, que é feito no exterior, é todo filmado, desde a entrega do cabelo até a finalização e leva de três a quatro meses.

Por falar nisso, as cerimônias no Memorial também podem ser acompanhadas pela internet, é isso?

Sim, se a família optar, toda a cerimônia é gravada e transmitida pela internet. Nós também oferecemos algo que nenhum outro cemitério oferece: se você não estiver na cidade e quiser enviar flores em alguma data comemorativa a um ente já falecido, pode fazer a encomenda em uma floricultura e nós transmitimos em tempo real a entrega das flores no lóculo, para que você possa vivenciar aquele momento, mesmo à distância.

Quais os outros empreendimentos do Grupo Altstut?

Temos um hotel em Ubatuba, uma Pousada em Paraty, os cemitérios e ainda atuamos na construção civil.

O senhor é muito ligado ao esporte até hoje e patrocina alguns atletas, correto?

Sim, patrocinamos 150 atletas de diversas modalidades – pedestrianismo, boxe, MMA, ciclismo e tamboréu. Tivemos cinco atletas representando a região e o Brasil nas Olimpíadas, no ciclismo. A nossa equipe de ciclismo é a mais antiga do país, com 17 anos.

O senhor ainda pratica algum esporte?

Todos os dias. Às segundas e quartas, faço MMA, às terças e quintas, boxe, às sextas faço musculação e alongamento. E sábados e domingos, fico livre para fazer o que eu quiser na academia. Graças a essa rotina não preciso tomar remédio e meus dias são mais produtivos. Quando eu não consigo treinar, fico mal comigo.

O senhor lida com a morte diariamente. Tem problemas em falar ou pensar nela?

Antes do Memorial eu jamais pensei que pudesse frequentar diariamente uma necrópole. Mas com o passar do tempo e também com o ambiente agradável que criamos ficou tudo muito natural. Cada falecimento que vivenciamos, é um falecimento, é triste, mas nós buscamos não deixar a rotina ficar pesada. Por isso me associei ao esporte, às ações sociais e buscamos tornar isso mais leve, trazendo shows ao Memorial em datas comemorativas, como Dia dos Pais, Mães e Finados. A ideia é que não haja uma ruptura total, ou seja, que após o falecimento, a família e os amigos não queiram mais visitar o ente amado. Eu acredito que a morte é a continuidade da vida, uma nova etapa e ninguém pode se sentir abandonado neste momento. Eu encontro pessoas que dizem que compraram um lóculo no Memorial porque é um lugar alegre, que sempre tem festinhas.

Diego Brígido

Editor da Revista Nove

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