José Virgílio, presidente do Arte no Dique

Fotos: Christian Jauch

Desde muito jovem ele construiu carreira na área da cultura.

Sempre esteve envolvido com grandes nomes da música e da arte, como Moraes Moreira, Margareth Menezes, Gilberto Gil e Pepeu Gomes. Saiu da Bahia há 15 anos para organizar uma micareta na região do ABC Paulista. Licenciado do grupo Olodum, do qual foi diretor de produção por cinco anos, recebeu um convite profissional da produtora de Ivete Sangalo, mas negou para abraçar o desafio em São Paulo.

Quando chegou, além da micareta, emplacou um projeto social na região, em parceria com o Olodum, para apresentar a percussão aos jovens da comunidade. O projeto foi um sucesso e o grupo de alunos percussionistas veio se apresentar, juntamente com Simonian, no SESC de Santos.

Por aqui, encontrou novos parceiros e iniciou, então, um trabalho na comunidade do Caminho da Capela, em 28 de novembro de 2002, o que seria o embrião do Instituto Arte no Dique, projeto social que atende diariamente 500 pessoas da comunidade do Dique da Vila Gilda, uma das maiores favelas sobre palafitas do Brasil e do mundo, em Santos. Nessa entrevista José Virgílio Leal de Figueiredo nos conta sobre o Arte no Dique e sua importância para a cultura da cidade.

Quando você chegou a Santos, já tinha o projeto do Arte no Dique idealizado?

Eu cheguei aqui convidado para iniciar um projeto de percussão em comunidades carentes, aos moldes do que já era feito no ABC Paulista. Acabei fazendo uma parceria com o Instituto Elos, integrado por jovens arquitetos, que se interessaram por um projeto que eu tinha de construir um centro cultural completo. Em meados de 2003, quando o projeto de percussão já existia há alguns meses, os arquitetos do Elos desenvolveram a maquete do centro cultural. Como eu carregava a marca Olodum e estava desenvolvendo o projeto social no Dique, o prefeito Beto Mansur quis me conhecer e logo assinou uma carta de intenção de cessão de uma área para a construção do complexo cultural. Consegui trazer Moraes Moreira para um show no SESC e durante o coquetel, antes do show, eu apresentei a algumas empresas o projeto, com a maquete e a carta do prefeito. Conseguimos o patrocínio inicial da Libra Terminais e o apoio da imprensa local. Um ano depois, em 2004, com o projeto já bem encaminhado, decidi ficar de vez por aqui.

Qual o objetivo do Instituto Arte no Dique?

O principal objetivo do projeto é a inclusão social e a formação de cidadãos por meio da arte e da cultura. Através de vários cursos e oficinas, principalmente pela percussão, nós apresentamos novas oportunidades para essas pessoas. E queremos quebrar o estigma de que elas vivem na boca de fumo e não merecem respeito.

Quantas pessoas são atendidas pelo projeto e qual a faixa etária?

Hoje atendemos quase 500 pessoas todos os dias, das 7h30 às 20h, em várias atividades e todos são muito bem-vindos. Inclusive temos oficinas de crochê e de customização para pessoas de mais idade. É uma forma de proporcionarmos atividade e uma razão à vida dessas pessoas, além de melhorar a renda. O Arte no Dique paga o professor, mas as alunas se autofinanciam, comprando o material de trabalho e rentabilizando, com a venda do que produzem.

Outros projetos de destaque surgiram do Arte no Dique. Quais você elencaria como sendo os principais?

A Banda Querô certamente é um dos nossos grandes projetos, com repercussão nacional e até mundial, mas também temos outros importantes e já consagrados, inclusive que constam do calendário de eventos da cidade. A Mostra Cultural Arte no Dique, que acontece desde 2011 e reúne grandes nomes da arte regional e até nacional; o Som das Palafitas, que é um festival de música instrumental, que acontece aqui no instituto; o Arraial do Dique, que resgata o cancioneiro das festas juninas e a Primavera Cultural, que acontece em setembro.

Quem são os parceiros do projeto hoje?

Nossa principal parceira é a prefeitura de Santos, com a qual temos dois convênios e estamos, inclusive, construindo um restaurante-escola aqui na frente, que terá a configuração de um Bom Prato, com custo de R$ 1,50 por refeição e também pretendemos oferecer gratuitamente comida às pessoas que não têm condições de sair das palafitas, por dificuldades de locomoção e também não têm condições de pagar nem este valor pela refeição. A PUC, uma das principais universidades do país, também é uma grande parceira, com a qual estamos desenvolvendo uma rádio web comunitária, com todos os equipamentos adquiridos por eles. Também já realizamos um curso de fotojornalismo com duração de sete meses em parceria com a universidade, com certificados assinados pelo reitor. O Arte no Dique será a primeira extensão de pesquisas, em ONGs, fora da PUC. Estamos em busca de parceiros da iniciativa privada para que consigamos dar continuidade no projeto e ampliar nossas ações. Hoje, apenas conseguimos manter os custos do instituto.

Existe uma extensão do projeto na França. Como se deu isso?

Tivemos uma estagiária franco-brasileira aqui no instituto, em 2010, que ganhou uma bolsa de estágio no Brasil e escolheu o Arte no Dique, pois a mãe é santista. Foi ela quem articulou, juntamente comigo, nossa filial na França, em La Ciotat, reconhecida pelas leis francesas e operante. A função do instituto lá é receber intercambistas culturais daqui do Brasil e organizar a estada deles na França. No ano passado, tivemos uma passagem maravilhosa por Paris por 15 dias, onde visitamos um conservatório de música com nossos meninos e um deles já está estudando francês aqui para ir para lá nos próximos meses. Temos também um menino que saiu do projeto com 18 anos, foi para a Itália estudar música e hoje, aos 20 anos, é um conceituado percussionista, disputado em todo o país.

Como é que as pessoas chegam ao projeto?

Principalmente pelo boca-a-boca e pela instalação de faixas na comunidade. Também sempre tivemos, desde o início, um assessor de imprensa, o que nos deu uma boa entrada na mídia local.

Hoje o instituto funciona em um complexo de 960 metros quadrados. Desde quando o Arte no Dique começou a funcionar nesse prédio?

Desde 2012. Em 2009, com a visita do então Ministro da Cultura, Juca Ferreira a Santos, o Papa, já prefeito, disponibilizou R$ 1.950.000,00 para a construção do complexo. Em 2010 pressionei o Ministro para que viesse a Santos lançar o edital. Em março de 2011 começamos a construção e em junho de 2012 inauguramos a Escola Popular de Arte e Cultura Plínio Marcos – Instituto Arte no Dique.

Quais são as oficinas que o instituto oferece?

Temos várias oficinas, como percussão, dança, capoeira, violão, customização, informática, audiovisual e teatro. Além disso, atendemos diariamente 260 crianças no projeto Escola Total, da Secretaria de Educação, oferecendo reforço escolar, esporte, informática e música, no contraturno, ou seja, no período em que elas estão fora da escola.

O instituto tem professores e monitores que foram alunos dos projetos?

Sim, 70% dos nossos monitores do projeto Escola Total são ex-alunos dos nossos diversos projetos.

A comunidade do dique da Vila Gilda acolhe o projeto?

Todos recebem muito bem e são nossos parceiros. Nunca tivemos nenhum problema de depredação do prédio ou falta de segurança, por exemplo. Existe um respeito muito grande, principalmente porque os filhos dos moradores da comunidade estão aqui dentro. As pessoas entram e saem daqui quando querem e conhecem as regras. Muitos fazem festa de aniversário aqui, porque não têm condições de receber as pessoas nos barracos. Este espaço foi construído para eles utilizarem e por isso devem preservar e eles sabem disso.

Você trabalhou no clipe de They Don’t Care About Us, do Michael Jackson, que foi gravado no Brasil, no Pelourinho, em 1995. Como foi essa experiência?

Sim, vários produtores participaram daquele clipe: tinha a produção dele, a produção da gravadora, a produção de Spike Lee, que foi o diretor, e a produção do Olodum, que era eu. Cabia a mim a interação entre o Michael e o Olodum. Foi uma experiência inesquecível na minha vida, uma grandiosidade que nem dá para imaginar. Tudo funcionava com muita agilidade e profissionalismo. As camisas do Olodum que o Michael usa no clipe foi ele quem escolheu usar após ver várias pessoas da comunidade com elas. Então, Spike Lee chegou em mim e disse: Michael quer um modelo de cada camisa, esse será o figurino dele no clipe. Aquela camisa rasgada, que acabou virando moda, foi ele mesmo quem rasgou e, então, passamos a confeccioná-las rasgadas, porque todos queriam daquele jeito.

Você também foi convidado para ser fotografado para um livro que fala sobre a identidade brasileira.

Isso mesmo, é um livro chamado Somos Brasil, do fotógrafo britânico Marcus Lyon, que percorreu 22 mil quilômetros no Brasil e entrevistou e fotografou 104 pessoas que retratam a identidade do país. E com muito orgulho eu sou uma dessas pessoas. O livro acabou de ser lançado, agora em março.

Diego Brígido

Editor da Revista Nove