A Pedra da Feiticeira

Foto: Julio Domingues

No meio do caminho tem uma pedra. No passado, havia, também, uma bruxa.

Quem tem por hábito as caminhadas à beira-mar na Praia do Itararé, em São Vicente, está acostumado a cruzar a Pedra da Feiticeira no meio do caminho. Ora banhada integralmente pelo mar, nas marés cheias; ora exposta em plena areia, nas marés baixas, ela é parte do cenário da cidade.

Há alguns anos a pedra ganhou uma escultura em fibra com 3,5 metros de altura, que representa a imagem de uma feiticeira, figura que povoa o imaginário dos vicentinos desde o século XVI. A imagem foi instalada ali em alusão à lenda da Pedra da Feiticeira. Você certamente já ouviu falar, mas sabe qual a história?

Reza a lenda que nos tempos remotos, quando a praia ainda era deserta e quase sem visão para o mar – em função da altura da vegetação, uma mulher misteriosa vagava pela região, mal vestida e falando sozinha. Nas noites quentes, ela dormia sobre a pedra, que ficou conhecida como a ‘cama da velha’. Apesar de não ser idosa, os trajes desgrenhados e a pele maltratada pelo sol davam à mulher um aspecto de uma velha bruxa.

Seu nome era desconhecido, mas a imagem lendária da ‘bruxa da pedra da praia’ era conhecida em todo o povoado. Era inofensiva, não molestava ninguém, mas tinha por hábito dançar, cantar e acenar para os navios que passavam na barra. Nos poucos contatos que tinha com a comunidade, contava de seu amor por um marinheiro português, que visitara a Ilha de São Vicente na juventude, com o qual teve um romance e de quem engravidou.

O navegador partiu para Portugal dizendo voltar para buscar a amada e o bebê, promessa que nunca cumpriu. Desmoralizada e desesperada, a mulher entrou em depressão e desequilíbrio mental, perdendo a gestação. Isolou-se na pedra, local onde ocorriam os seus encontros românticos, e ali permanecia longos períodos, acenando para cada barco que passava, na ilusão de ser o seu amado marinheiro.

Certa vez, acreditando ter visto alguém acenar de um barco que passava ao longe, se lançou ao mar, em dia de maré cheia e sob forte correnteza e, então, morreu afogada. Contam que ainda hoje, nas noites de luar, se pode ouvir os gritos da velha feiticeira. Será?

Diego Brígido

Editor da Revista Nove