Releitura

Quando o pé sujo veste uma meia nova

Esqueça tudo o que você achou que sabia sobre releitura na gastronomia

Ângelo já era o terceiro cozinheiro daquela biboca em menos de seis meses. Mas ele era diferente dos anteriores, cursava gastronomia e gostava de ser chamado de Chef.

– Onde já se viu, nunca derramou uma gota de suor em cima de um ovo frito e se acha melhor que nóis só porque usa essa touca toda mal-ajambrada — resmungava Zito, enquanto raspava o resto de gordura do dia anterior grudado na chapa.
– Deixa o menino, velho reclamão. Ainda está iludido com o começo da profissão.
– Profissão? Desde quando esquentar o umbigo no fogão e esfriar na pia é profissão? Logo ele aprende que o vocabulário de boteco não é essas palavra do estrangeiro que ele usa. O idioma aqui é bucho, farinha e bife de fígado.

– Cozinheiro novo nessa espelunca? — interrompeu Wilson, que escutava a conversa entre Zito e Nena, sentado no balcão da lanchonete.
– É chef! — ironizou Zito
– Estudante de culinária — complementou Nena
– Gastronomia! O menino vai na universidade pra aprendê a cozinhá e quer ensinar dois macacos véios, que nasceram na cozinha.
– E o que houve com o anterior? — perguntou o cliente.
– Desistiu, como os outros. Conta pro doutô, Nena.
– Quem consegue cozinhar nessa imundice, doutor?

Até Nena, que era a tolerância personificada não tinha mais estômago e paciência para aquela nojeira toda.

– Suponho que sêo Januário não vá ficar muito satisfeito quando souber do tipo de conversa que os funcionários dele têm em frente aos clientes — provocou Wilson em tom sarcástico, enquanto passava um guardanapo no balcão onde comeria.
– E desde quando a falta de higiene desse pé sujo é novidade pra alguém — se irritou Zito, que além de comandar a chapa, tinha que lavar a louça, servir cliente, varrer o chão e limpar todo o resto.

– Olha a cor do fundo do seu copo doutor — disse Nena, que, logo em seguida apontou para a porta sinalizando que sêo Januário chegava com o protegido Ângelo.

– Bom dia, sêo Wilson.
– Bom dia, sêo Januário. Soube que está de cozinheiro novo.
– É chef! — gritou Zito, enquanto passava na chapa o habitual pão com requeijão do cliente.
– Sim, esse é o chef Ângelo. Ele é gastrono, de faculdade.
– É gastrônomo, sêo Januário, mas ainda não me formei.
– E pra que o senhor contratou um chef se essa espelunca vive vazia?
– Ora, o menino vai trazer mais clientes. Clientes refinados. Ele sabe fazer umas coisas diferentes, com uns nomes bacanas — defendeu Nena.
– Esquisitas. Umas coisas esquisitas, com uns nomes esquisitos — voltou a interromper Zito, ao jogar com as mãos ainda molhadas da louça, o pão quente no prato de Wilson.
– Já temos uma nova proposta de cardápio, vamos lançar na próxima semana — contou Ângelo em tom cheio de pompa.
– O menino sabe o que faz e vocês dois apenas obedeçam o chef gastrônimo — ordenou Januário.
– Pode me contar, por exemplo, o que serviremos de segunda-feira ao invés do virado à paulista? — provocou Zito.
– Pra segunda teremos consumê de miúdos com ervas finas, no azeite, que acompanha um risoto de feijão branco com linguiça.
– Entendeu ignorante? — gargalhou Nena na direção de Zito
– Entendi que ele tirou a dobradinha de quinta e jogou pra segunda. E deu uns nome esquisito pra coisa.

– É releitura — bradou Januário, todo orgulhoso da nova contratação.

Diego Brígido

Editor da Revista Nove

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