Flipper, o golfinho de São Vicente

Um #TBT para quem riu e chorou nas décadas de 80 e 90

Se você era jovem nas décadas de 80 e 90 e morava ou frequentava as praias de Santos e São Vicente, esse #TBT vai tocar lá no fundo do seu coraçãozinho. 

Eu estava entre as quase 4 mil pessoas que se aglomeravam para assistir a triste partida de Flipper, o golfinho que viveu 9 anos no Oceanário de São Vicente, rumo a sua liberdade.

Era 17 de janeiro de 1993 e às vésperas de completar 13 anos de idade eu encarava a minha primeira despedida. Mal sabia que a história ficaria ainda mais triste nos dias que sucederiam.

* ajudaram no resgate dessas memórias os sites Memórias Santistas e Novo Milênio

Nosso herói, Flipper

Flipper vivia, desde 1984, em um imenso tanque de água salgada, construído em 1967, na Praia do Itararé, próximo à Pedra da Feiticeira. Junto dele, viviam outros golfinhos, focas e leões marinhos, todos capturados e adestrados. Mas Flipper, cujo nome foi inspirado no seriado de TV famoso dos anos 1980, era a grande atração e atraía milhares de pessoas de todo o Brasil e até do exterior.

O golfinho foi retirado das águas de Laguna, em Santa Catarina, então com dois anos de idade, e passou por treinamentos para entreter o público, com piruetas, saltos fora d’água e truques com bolas. Ele virou, de fato, a estrela do Oceanário e o mascote de toda uma geração que, mergulhada na inocência da juventude, mal sabia sobre as acusações de maus tratos das quais o equipamento era alvo.

Em 1991, então, uma ação pública, movida pelo Grupo de Apoio ao Boto, embargou a atração, mas Flipper continuou habitando o tanque. O caso ganhou destaque internacional, até que em 1992, a organização World Society for the Protection of Animals (WSPA) exigiu da Justiça brasileira a soltura do nosso amigo bicudo.

Um dos membros da WSPA, Ric O´Barry, era ex-treinador de golfinhos e tinha sido o responsável por treinar todos os animais que participaram do seriado Flipper, na tevê norte-americana. Ele ficou encarregado de acompanhar a adaptação de Flipper por um mês no Oceanário, até que fosse preparada a área em Laguna para ele ganhar a liberdade.

Então, no triste janeiro de 1993, lá estávamos nós, salgando de lágrimas ainda mais o tanque que abrigava o nosso herói, bem ali, no quintal de casa. Foi uma operação confusa, que levou mais de duas horas. Flipper dormia, sedado, e nem se deu conta de que encararia uma viagem de helicóptero até as suas águas-natal.

Quando o helicóptero subiu naquela tarde cinza, um misto de tristeza e alegria, despedida e conforto tomou todos nós, preocupados com os boatos de que as chances de o golfinho se readaptar no mar eram pequenas.

Nosso amigo ficou 3 meses em adaptação, em uma área cercada no mar de Laguna, até que em março de 1993 foi solto durante um mega espetáculo televisionado por tevês do mundo todo. Nadou durante um tempo ao lado do treinador e, finalmente, ganhou o mar.

Mas, como era previsto, Flipper não se saiu bem na nova vida e teve dificuldades para se readaptar, foi rejeitado pelos outros golfinhos e começou a migrar de volta para as águas do litoral de São Paulo sozinho. Ele estava o tempo todo sendo monitorado pela equipe da WSPA e finalmente surgiu no mar de Praia Grande, todo machucado, com cicatrizes provavelmente provocadas por ataques de outros membros da espécie.

Nosso amigão foi visto pela última vez em 1995 e, desde então, no Brasil, passou a ser proibido atrações usando golfinhos. Que bom!

Diego Brígido

Editor da Revista Nove